"Quando perdeste o sonho e a certeza tornaste-te desordem e fizeste-te nuvem"
Simónides de Kéo, Epitáfio nas Termópilas
lido em De Profundis, Valsa Lenta, de José Cardoso Pires
silêncio
"Quando perdeste o sonho e a certeza tornaste-te desordem e fizeste-te nuvem"
Quando descobrires o que realmente interessa e importa na vida, nunca mais vais achar real interesse e importância em todas as coisas menores.
E tudo é menor que o que realmente interessa e importa na vida.
O universo reorganiza-se. No dia seguinte retoma a forma habitual.
Nada consegue vencer a força do quotidiano.
Tossi o dia todo e tu nem notaste. Não te interessam as palavras que me engasgam. Ou as engulo ou as vomito pelos olhos.
Antes de ir, preciso de me lembrar de ouvir as vozes daqueles que falam a língua da beleza. Para experimentar o melhor do mundo antes de dizer, ou não, que vale a pena. Antes de dizer que está na hora.
Parecemos máquinas, e devíamos ser. Máquinas sem nada de consciente ou de humano.
Porque isso livrar-nos-ia da culpa de vivermos os nossos gestos sem consciência e humanidade.
Desligar-me do mundo leva-me à lucidez.
Encontro silêncio interior e vejo como o quotidiano é pintado pelos mais inúteis sons.
Não pinto, mas, mais que tudo, sou pintor.
A pintura é a mais silenciosa forma de expressão da beleza.
Há dias em que as palavras me saiem da boca como se vomitasse pedras maiores que a minha garganta. Custosas, difíceis.
Já nem te digo que me sinto feio. Vais discordar e eu vou sentir-me igualmente feio.
Mais vale calar-me.